Histórias de Moradores de Campos do Jordão

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade de Campos do Jordão.


História do Morador: Carlos Roberto de Andrade
Local: São Paulo
Publicado em: 17/05/2004






História de Vida

História:

Identificação

Museu da Pessoa - Para começar, queria que você falasse seu nome completo, local e data de nascimento. Carlos Roberto - O meu nome é Carlos Roberto de Andrade, nasci em Campos do Jordão, em 31/08/1951.

Pais e avós

P - Eu queria que você contasse um pouquinho a história da sua família: seu pai, sua mãe, o nome deles. Carlos Roberto - Eu fui criado com a minha avó em Campos do Jordão. Quando eu nasci minha mãe era menor, eu acho que tinha 15 ou 16 anos, e ela veio para São Paulo para trabalhar. Eu fui criado com a minha avó em Campos do Jordão. A minha avó se chamava Maria José Lourenço. Eu era filho único, paparicado desde pequeno. (risos) Em Campos do Jordão nasci, fui criado, estudei até 15 anos e com 16 anos eu vim para São Paulo. M

P - O contato com a sua mãe foi menor do que com a sua avó? Carlos Roberto - Eu chamava a minha avó de mãe. A minha própria mãe mesmo, eu chamava pelo apelido, Di. (risos) Não tínhamos esse vínculo de filho e mãe porque eu fui criado pela minha avó e chamava a minha avó de mãe. M

P - O seu avô também estava? Carlos Roberto - Não, o meu avô já era falecido nesse período. Só vivíamos os dois em Campos do Jordão. M

P - Qual que é o nome da sua mãe? Carlos Roberto - Glória. M

P - E o nome do seu pai? Carlos Roberto - Meu pai é José. M

P - Você conheceu o seu pai? Carlos Roberto - Na realidade, eu só vi o meu pai quando eu tinha oito anos de idade. Você imagina em 1951 uma mãe de 15 anos ter um filho. Foi um escândalo (risos) E a minha avó é muito rígida com esse sistema, então não permitiu que o meu pai se aproximasse. O nome foi dado na delegacia para assumir a paternidade e ela nunca deixou o meu pai me ver. Aí, eu o vi uma vez com oito anos só de idade, nunca mais o vi. Hoje eu tenho o endereço dele, sei onde ele mora, inclusive ele não está bem, mas é engraçado, tem hora que dá vontade de ir, tem hora que você não sabe o que faz, porque não tem vínculo nenhum. Eu sei, é o meu pai, mas não tem aquela coisa de filho: "Nossa, aquele é o meu pai". Eu ainda não senti aquela coisa de falar: "Tenho que ir vê-lo". Mas eu vou vê-lo. Não tenho nada contra. O que passou, passou. Os dois eram muito jovens, o meu pai e a minha mãe. Quer dizer, são coisas da juventude, mas eu também não sinto aquele vínculo de pai e filho. Eu fui criado pela avó, tudo que aprendi foi pela avó. M

P - Como foi a infância em Campos do Jordão? Carlos Roberto - Nós morávamos no bairro do Britador, era casa de madeira. Campos de Jordão é muito frio. Na época de inverno a temperatura chega abaixo de zero. Nós éramos uma família pobre, nós dependíamos do dinheiro que a minha mãe mandava de São Paulo. Eu estudava e fui guarda-mirim. Em Campos do Jordão tinha uma escola que abrigava aqueles meninos que ficavam na rua, olhando o carro. E tinha o Padre Orestes, que pegava essas meninada para não ficar na rua. Ele dava uniforme e educação. Nós fomos criados assim. Eu ia para a escola, depois, à tarde, ia ser guarda-mirim, ia trabalhar no trânsito, ia trabalhar nos hotéis, guardando carro.

Mudança para São Paulo

P - Quem mais, além de você e sua avó, morava na casa em Campos do Jordão? Carlos Roberto - Só nós dois. Éramos só minha avó e eu. Aí as coisas foram complicando porque fui ficando moço, começava a quer alguma coisa, já não tinha mais condição. Com 15 anos, quase para 16 anos, eu vim para São Paulo. M

P - Você já tinha vindo para São Paulo alguma vez? Carlos Roberto - Vinha, mas muito esporadicamente. A cada dois, três anos, vinha e só ficava um ou dois dias com a minha mãe. Depois voltava. M

P - O que a sua mãe fazia em São Paulo? Carlos Roberto - A minha mãe trabalhou em várias atividades. Na realidade, ela era cabeleireira. Trabalhou à noite também em casas noturnas. Ela era cabeleireira e não sei se dançava. Eu sei que era cabeleireira, porque tem muitas fotos dela. Ela cortava o cabelo do pessoal e sobrevivia disso. Era meio complicado, porque o horário dela não batia com o da gente. Só a via nas férias. O meu pai era em São Paulo, ele era sócio do Avenida Dance. Eu acho que os mais velhos conhecem. Fica na avenida Ipiranga e acho que ainda existe até hoje. O meu pai e meu avô eram donos daquilo. Mas, a gente só sabia a história, nunca fui lá. M

P - A sua mãe se casou novamente depois? Carlos Roberto - Depois ela se casou novamente com o Alcides, meu padrasto. M

P - Você teve uma relação de proximidade com esse padrasto? Carlos Roberto - Sim. Quando eu vim para São Paulo, vim com essa minha avó, que eu chamava de mãe. Ela ficou pouco tempo, eu acho que um ou dois anos só, e faleceu. Aí, eu já morava com a minha mãe e com o meu padrasto. Quando viemos nós morávamos na Vila Maria.

Primeira escola

P - Como era a escola na fase em que você ainda estava em Campos de Jordão? Carlos Roberto - A escola era do Estado. O nível social dos alunos era muito heterogêneo, porque o pessoal que tinha mais condições estudava na mesma escola do pessoal que tinha menos condições. De certa maneira isso era bom porque você tinha boas amizades. Só existia praticamente o colégio do Estado, não tinha escola particular. Naquela época, escola particular era para quem queria passar de ano. O Estado não, o Estado era muito difícil, então, essas eram as melhores escolas. Até hoje me lembro que meu boletim todo mês tinha que ser assinado pelo responsável, mas a minha avó era analfabeta e não podia assinar. Então o diretor da escola é que assinava para mim. Era legal. (risos) M

P - Tem alguma professora ou professor que tenha te marcado de forma especial? Carlos Roberto - Tive uma professora que me marcou muito. Ela se chamava Dirce Maluf. M

P - Por que ela te marcou? Carlos Roberto - Ela era muito rígida, mas era daquela que não batia na gente. Mas ela era muito rígida, não tolerava bagunça. Tinha que fazer lição de casa. Eu sempre estava falando dela para a minha avó, que ela era muito brava. Aí, a minha avó falou: "Leva um franguinho para ela de vez em quando". (risos) Vez ou outra eu estava levando um franguinho para ela. Depois disso, sempre que tinha que pegar alguma coisa fora, ela me chamava. Ela não me chamava de Carlos, me chamava de Roberto, e ela praticamente me adotou, começou a me dar conselhos. Eu fiz o quarto ano primário junto com admissão, e aí eu senti que ela gostava de mim porque quando chamaram meu nome ela vibrou. (risos) Eu não esqueci isso. Ela me marcou muito. M

P - Você passou de primeira no exame de admissão? Carlos Roberto - É. Fiz o quarto ano e admissão juntos, porque nós estudávamos de manhã e a admissão foi à tarde. Eu repetia muito o primeiro e segundo anos, mas depois, do terceiro para cá, nunca mais repeti. M

P - E o ginásio, você fez lá em Campos do Jordão? Carlos Roberto - Em Campos do Jordão, isso. Fiz o primário, aí comecei aquela idade de querer trabalhar, mas não tinha campo. Em Campos do Jordão não tem muito. Lá é turismo. O pessoal fazia temporada e só se vai para lá na época de inverno. Depois do inverno acaba, não tem mais ninguém na cidade. As faculdades eram só em Taubaté, São José dos Campos... Lugares longe. Eu não tinha condições. Só ia quem tinha dinheiro. O meu tio sugeriu que eu viesse para São Paulo para trabalhar, porque as coisas estavam muito ruins para a gente. Quando se é garoto, não precisa de nada, mas quando já se está mocinho, com 15 anos, já existem algumas necessidades.

Brincadeiras de infância

P - O que você mais gostava de fazer em Campos do Jordão? Carlos Roberto - Eu era muito moleque. Eu tenho o rosto todo marcado, os braços quebrados duas vezes cada um. Gostava muito de pular o rio, brincar no mato, porque lá é montanha. Eu era muito sapeca. Brincava com arco. Era coisa de louco, coisa de moleque... M

P - Arco? Carlos Roberto - É, arco e flecha... Tinha uma infância muito maravilhosa. Não me esqueço das corridas. Toda vez ia correr, pulava o rio e quebrava o braço. Aí sarava. Pulava o rio de novo, quebrava o outro braço. Eu tenho o braço quebrado duas vezes cada, então quebrei quatro vezes... (risos) Aqui na boca tenho cicatriz, na testa também. M

P - Que rio é esse? Carlos Roberto - Em Campos do Jordão tem um rio que beira a cidade. Naquela época não era poluído, não tinha tanta casa como existe hoje. Eu gostava muito dali. M

P - A brincadeira era pular o rio Carlos Roberto - Pular o rio. Pulava e atravessava. Vinha correndo, pulava de um lado para outro. Outra coisa muito marcante na nossa época é que eu gostava muito de jogar bola, mas andava sempre também com o joelho ralado, sempre Coisas de moleque. M

P - Os jogos de futebol eram peladas na rua ou era campo? Carlos Roberto - Não, eram peladas, e tinham os jogos mesmo. Depois já comecei a entrar num clube que se chamava Vale Encantado, onde a gente jogava bola. Era muito gostoso, maravilhoso. A gente andava quase uma hora a pé para ir jogar nesse bairro, porque na época a gente não tinha carro. Todo mundo saía no domingo de manhã. Então, o que a gente fazia? Eu, como guarda-mirim, ia à missa com roupa de gala, era uma roupa diferenciada da semana. Tinha o nosso instrutor, ele ficava lá atrás, e se alguém olhava para trás, ele anotava o número. Depois disso eu ia jogar bola. Foi uma época muito boa. Eu não tinha pai nem mãe perto, mas tinha a avó. Esse padre, percebendo isso, acabou me educando também. Na escola também me educavam, ensinavam as boas maneiras, diziam que não podia roubar, que tinha que estudar. Então fui tendo um comportamento. E a família também ajudava bem nesse aspecto. M

P - Quando você era pequeno, você já sentia a presença dos turistas lá? Carlos Roberto - Já. A gente ficava na expectativa de chegar o mês de julho, pois chegavam os turistas e nós íamos para os hotéis. Ficava tudo escalado: o Hotel Toriba, o Hotel São Paulo, aqueles hotéis todos. Nós queríamos ir para esses lugares. Ninguém queria ficar no Centro, queria ficar nos hotéis. Mas como tinha escala, e eu era o guardinha-mirim que ficava no trânsito, então não tinha jeito. Onde eles escalavam você tinha que ir. M

P - E vocês iam para fazer exatamente o quê? Carlos Roberto - Nos hotéis, ficava como se fosse um office-boy, mensageiro... Olhava o carro, ganhava gorjeta... Só que tinha um talãozinho onde precisava registrar. Dávamos para eles e muitos não queriam. Outros aceitavam e você anotava aquilo, depois entregava para a igreja, que era para o padre que vinha, era ele quem recebia isso.

Avó materna

P - E tinha uma educação religiosa? A sua avó era católica? Carlos Roberto - É, a minha avó era muito católica. Eu ia à missa todo domingo, não faltava uma missa e era daquele que ia no sábado confessar e, às vezes, a gente saía correndo, gritando: "Ah, não faz isso não que é pecado". (risos) Então, ficava quietinho em casa, no outro dia ia para a missa. Foi sempre assim. Na época de procissão, ia para a procissão, tocava na fanfarra. Eu tocava trompete, que é piston. Tinha a fanfarra... Quer dizer, era muito bom. Não senti falta do pai e da mãe. A minha avó preencheu tudo isso aí, só que ela era muito doente. Então, eu ficava muito em casa. Às vezes não podia sair, tinha que ajudar, mas é engraçado que eu sinto falta dela agora, não antes. (risos) M

P - Como você descreveria a tua avó? Carlos Roberto - Uma mãezona. Uma mãezona que não tinha cultura, não tinha educação, vamos dizer assim. Ela me emociona, desculpa. (choro) M

P - Não tem problema.

Paquera na adolescência

P - Na adolescência,as paqueras, namoros... começaram lá em Campos do Jordão? Carlos Roberto - Começou em Campos. Só que o namoro era assim: estava na escola, às vezes, fazia aquela brincadeira, um olhando para o outro e dizendo que estava namorando, mas nem se tocava. (risos) Eu me lembro da primeira namorada, do primeiro beijo. Chamava-se Fátima, eu a chamava de Fatinha. A gente não se esquece do primeiro beijo, como a mulher, que não se esquece do primeiro sutiã... (risos) Não era essa a propaganda do Valisère? E comigo foi a mesma coisa. O homem não se esquece do primeiro beijo. É muito emocionante. M

P - Aonde foi esse momento emocionante? Carlos Roberto - Foi na casa de um dos primos. Nós até estávamos brincando no quintal e aquele beijos... Nossa (risos) Foi um beijo muito rápido. Nada igual a hoje em dia, completamente diferente. M

P - Mas parece que durou a vida? Carlos Roberto - Exatamente. Talvez devesse ter vindo para São Paulo mais cedo, porque no interior você é muito inocente com essas coisas. Quando você chega em São Paulo você sofre muito, porque o pessoal é muito mais vivo, mais agitado e você é muito pacatão. Hoje em dia, talvez, as grandes cidades já ajudam um pouco mais, tanto é que o Aché foi o meu primeiro emprego, praticamente.

Entrada na Prodoctor

P - Você falou que veio para São Paulo por motivo de trabalho. Carlos Roberto - Isso. M

P - Como foi essa mudança? Já tinha um lugar para trabalhar? Carlos Roberto - Não, nada. Vim com a minha avó e fomos morar na casa da minha mãe, com o meu padrasto, o Alcides. Chegando aqui não sabia nem andar em São Paulo. O meu tio que saía comigo. Nós não conseguimos emprego porque eu era caipira, moleque, não sabia nem andar em São Paulo, nem para office-boy servia. Na Vila Maria mesmo, onde eu morava, nós arrumamos um emprego de uma loja de móveis que fazia colchões. Eu comecei a trabalhar lá. De lá que eu comecei a conhecer o pessoal, comecei a andar em São Paulo, tal... Eu não trabalhei lá nem um ano. Eu trabalhava nessa loja com a Cida, que hoje é gerente do Líquidos do Aché. Trabalhando com ela, comecei a jogar bola com o irmão, que chama se Osmar, e o Osmar que me indicou. Falou: "Você não quer trabalhar comigo no Aché?". Na época era Prodoctor. Aí eu falei: "Vou, claro". Se não me engano eu ganhava 80 cruzeiros, uma coisa assim. Fui para o Aché, foi meu primeiro registro em carteira. Passei a ganhar 106, que eu acho que era o salário de menor. Quando fui para lá, tive que fazer o teste. O teste foi contar caixa de papelão. Fazia uma pilha e contava para ver se eu sabia fazer a conta, e quem conferia isso foi o seu Victor. O seu Victor tinha o escritório dele em cima, aí o Osmar falou: "Vem cá". Ele foi lá: "Quanto deu?". "Deu tanto". "Então, está certo. Isso mesmo". "Quando eu vou trabalhar?". "Começa já". No mesmo dia comecei a trabalhar na Prodoctor, na Venâncio Ayres, do lado do campo do Palmeiras, que hoje é o Laramara. M

P - É em Pompéia? Carlos Roberto - Lá é Pompéia, exatamente. Começando a trabalhar lá, eu ia da Vila Maria para lá todos os dias. Nessa época que eles estavam lá na Pompéia, eles já comentavam que tinha comprado um laboratório em Santana, que é o Aché, que era na Nova dos Portugueses, junto com a Dona Elfrida. Acho que eu não trabalhei um ano na Pompéia. Aí a gente veio para Santana, que é ali é Chora Menino, Imirim... É uma mistura danada que tem ali.

Distribuição dos produtos

P - A Prodoctor fazia exatamente o quê? Carlos Roberto - Só distribuição de produtos do Laboratório Sintofarma, que existe até hoje. Se eu não me engano, foi comprado também, há pouco tempo. M

P - Além de fazer essa contagem, o que mais que você fazia lá na Prodoctor? Carlos Roberto - Eu trabalhava na Expedição e Almoxarifado. No início eu fazia entrega nas farmácias com o seu Jonas, o pai do seu Victor. O seu Jonas já era velhinho e também bastante linha dura. Ele falava meio enrolado: "Carlon, Carlos, Carlinhos...". Ele sempre tinha esse tom. A gente trabalhava com ele. Às vezes, ia fazer entrega e depois da entrega ia fazer pagamentos ali na Light, na Xavier de Toledo. Eu era office-boy, entregava nas farmácias. Tinha as notas e umas caixas de madeira. Lá na Expedição separávamos a nota, colocávamos dentro das caixinhas de madeira. Cada farmácia era uma caixinha de madeira com os produtos dentro. Depois, fazia-se o roteiro. Às vezes eu ia com o seu Jonas, às vezes com o seu Álvaro, o João, que eram os motoristas. Ia fazer entrega nas farmácias. É engraçado que às vezes o trânsito estava andando bem e de repente tinha que dar uma brecada. Então aquelas caixas iam uma para cima da outra. Meu Deus do céu Quando a chegava na farmácia, estava tudo errado. Aí tinha que separar tudo de novo. (risos) M

P - Não tinha tampa? Carlos Roberto - Não, não tinha tampa. M

P - Dentro da caixa iam as notas que vocês iam cobrar? Carlos Roberto - Na realidade tinha uma caixa com o pedido separado dentro, só que a nota fiscal ficava com o motorista. Antes dele sair, ele fazia o roteiro. Então ele saía e ia, por exemplo, de Santana até a Casa Verde. Ele ia fazendo o roteiro por caminho para não perder tempo. Só que a gente enchia a perua com essas caixinhas que eram as entregas e, conforme o movimento que você ia andando, às vezes dava umas brecadas e aquilo caía, virava. Nossa, era uma mistura danada Aí, quando chegava na farmácia, não batia. Tinha que ir abrindo as caixinhas e conferir tudo novamente. Às vezes estava sobrando, estava faltando para entregar. (risos) M

P - Dentro das caixas tinham os remédios, então? Carlos Roberto - Eram os remédios. M

P - De que tamanho era essa caixa? Carlos Roberto - Ah, mais ou menos 30 por 20. Eram caixas pequenas. M

P - E que veículo era? Carlos Roberto - Depende. Às vezes ia de Perua Kombi, às vezes ia de carro, mas a maioria das vezes foi de perua Kombi. M

P - Era a única perua que tinha ou tinham várias? Carlos Roberto - Não, tinham duas já. Já tinham duas. M

P - Era de que cor? Carlos Roberto - Era branca. Depois, quando a gente mudou para cá, ela já era colorida, bonita, com aquelas faixas do Aché, mas no início, não. (risos) No início era uma perua branca. M

P - Você aprendeu a dirigir nessa época? Carlos Roberto - Não, eu aprendi a dirigir um pouquinho depois. M

P - Mas foi no Aché também? Carlos Roberto - Foi no Aché também. Aprendi depois. M

P - Nessa época, quem dirigia era o seu João? Carlos Roberto - É, na realidade nós separávamos o pedido e íamos fazer entrega, mas eu sempre dei sorte. Eles gostavam de mim. Eu comecei a trabalhar nesse período, fiquei acho que um ou dois anos, aí eles já me deixaram interno porque eu tinha uma facilidade de trabalhar e lidar com o pessoal e trabalhava bastante, não me preocupava. Nós chegávamos cedo e saíamos tarde. Não tinha aquele horário rígido. A gente estava sempre ocupado, sempre arrumando estoque, contando estoque... Assim eu acabei ficando dentro e eles acabaram me colocando como encarregado de Almoxarifado. A partir daí, aí as coisas foram somando. M

P - Isso já no Aché? Carlos Roberto - Lá na Prodoctor.

Aché da Rua Nova dos Portugueses

P - Como era a equipe de funcionários? Carlos Roberto - É engraçado que eu me lembro bem disso, no corredor do Aché, em Santana, tinha um canto assim que tinham os cartões de ponto, e era uma chapeira só. A gente ia se lembrando e ia decorando. De repente, tinham duas chapeiras. Depois, tinham três chapeiras. Cada uma daquelas tinha 25 funcionários. Aquilo ficou bem marcante. Em 1968, você percebia que o Aché já estava crescendo bem, que começou a preocupação deles construírem a fábrica em Guarulhos. Lá não, lá era tudo... Era escada, não tinha carrinho, as caixas eram carregada nas costas... Um dos sócios, que se chama Raphael, bolou uma esteira, de madeira, rolante, então nós jogávamos os cartuchos pela escada e pegávamos lá embaixo, para não estar carregando muito nas costas. Lá era complicado porque não tinha ergonomia, que hoje é uma preocupação. Hoje em dia, você vai pegar uma caixa, não pode: "Mais de 10 quilos não pode". Naquela época não tinha isso. Nós carregávamos nas costas duas, três caixas, fazíamos pilha, trabalhávamos... Tinha horário definido, mas se tivesse que ficar até mais tarde ficava com prazer, ficava tranqüilo. Era muito a garotada que trabalhava. Eu tinha 17 anos incompletos, porque eu entrei em 1968, sou de agosto... M

P - Só tinha homem trabalhando? Carlos Roberto - Não, tinha mulher. A minha esposa já trabalhava lá. As primeiras paqueras começaram lá. (risos)

Namoro

P - Como foi o começo de namoro? Carlos Roberto - Era engraçado. Era tudo moçada. Ia entregar mercadoria do Almoxarifado para a Embalagem, e sempre tinham aqueles olhares. Todo fim de semana tinha baile. Era na casa de um, era na casa de outro... Sempre Todo fim de semana tinha baile. A irmã do Celso de Abreu trabalhava lá e eu namorei com ela. (risos) M

P - Antes da sua esposa? Carlos Roberto - Antes da minha esposa. M

P - Como eram esses bailinhos? Carlos Roberto - Era naquela época da famosa luz negra. (risos) Tinha Cuba Libre, que a gente tomava, tinha a famosa luz negra... E nós levávamos o som. Desde essa época eu já estava acostumado a juntar o grupo, propunha fazer baile, jogar bola... M

P - O que é a luz negra? Carlos Roberto - Luz negra é uma luz que ficava incandescente. Quando você sorria os dentes brilhavam, a roupa brilhava. Já tinha aquelas lâmpadas que ficavam piscando e acendendo. (risos) M

P - Vocês dançavam que tipo de música? Carlos Roberto - Nessa época de 1970 era Elvis, Beatles... Fora Roberto Carlos, Jovem Guarda... M

P - Dançava de rosto colado? Carlos Roberto - Dançava de rosto colado. Aí começou a se dançar solto. E se falava de quem dançava solto: "Ah, esses caras não estão com nada Tem que dançar coladinho". (risos) Hoje em dia é comum. Ninguém mais fica dançando colado. Naquela época já estava começando isso aí. M

P - Como foi o pedido de namoro? Carlos Roberto - Foi engraçado, porque a gente começava a sair muito, sempre em grupinho, sempre ia saindo... Sabe que não foi aquele pedido Começa de mão dada, depois vem o primeiro beijo, e estava namorando. (risos) É engraçado porque eu morava na Vila Maria e ela que ia namorar comigo. (risos) Quando ficou sério não, daí eu que vinha para Santana, lá para o Imirim para namorar. M

P - Quando o Aché mudou para o Imirim, então ficou mais perto para você? Carlos Roberto - Sim, ficou. M

P - Como você fazia esse trajeto? Carlos Roberto - Nós demos sorte, porque quando a Prodoctor se mudou para Santana, foi inaugurada uma linha de ônibus da Penha ao Imirim, só que passava por dentro da Vila Maria, Santana. Foi uma beleza. Então, o ônibus passava na porta de casa e eu descia quase na frente da porta do laboratório. M

P - Quanto tempo demorava esse trajeto? Carlos Roberto - Ah, demorava uns 40 minutos. M

P - Como era a cidade nessa época? O bairro era muito diferente do que é hoje? Carlos Roberto - Olha, os ônibus já eram precários desde aquela época. Já era apertado, já era terrível. Eu me lembro muito bem disso. Nossa, era uma loucura pegar aqueles ônibus circulares. Melhorou quando apareceu essa linha. Como a gente pegava no início, a gente ia sentado, mas a hora que ia chegando a Vila Maria baixa, Vila Guilherme, já estava lotado, já era cheio. Nessa época já se falava muito em criminalidade, mas não era criminalidade do revólver, da criança. Era mais do adulto, dos assaltos... Eu lembro que um dos primeiros casos foi quando um menino de rua furou o olho de um soldado. Nossa, foi um escândalo danado: "Olha, que loucura...". Hoje, infelizmente a gente até encara isso como se fosse normal. Mas não era. A violência não era tanta. Nós íamos jogar bola em campo. No máximo saía uma briga de um dar soco no outro. Hoje não, você vai jogar bola, se sai uma briga, sai até tiro. Então é complicado.

Aché na Rua Nova dos Portugueses

P - Eu gostaria que você fizesse uma descrição do prédio da nova empresa. Carlos Roberto - O prédio tinha um, dois, três andares, tipo de um sobradão. Na frente, ficava a Embalagem e, na parte de baixo, o setor de Comprimidos. No primeiro andar, tinha a Hipodermia e a parte de Líquidos e, no andar superior, tinha o Controle de Qualidade e a parte administrativa, onde ficava o caixa. Embaixo era o Estoque. Era um prédio muito antigo, era uma casa que eles foram abrindo, abrindo e virou galpão. Nesse próprio terreno tinha um quintal muito grande que entrava caminhão. No fim foi fechado e virou estoque de produto acabado. Teve um momento que não tinha mais para onde crescer, aí veio para Guarulhos. Lá tinha mecânica de automóveis, tinha um mecânico que cuidava da perua também. Tinha uma casa do lado que era do Aché, que foi colocado para uma família de funcionários, que é a família Vono. As pessoas dessa família que moravam nessa casa, os filhos eram todos funcionários do Aché. Quer dizer, essa parte social do Aché, de uma certa maneira já vinha desde essa época. Eles moravam lá e não pagavam aluguel. M

P - Como era o dia-a-dia lá? Não tinha um restaurante dentro? Carlos Roberto - Não. M

P - O pessoal comia aonde? Carlos Roberto - Tinha um lugar que era chamado de cozinha, que tinha a Francisca, que era quem fazia o café. Acho que tinham umas três mesas e um lugar para esquentar a comida. Levava-se marmita, aquela de alumínio. Íamos de ônibus, de manhã, e deixávamos lá guardado. Na hora do almoço ela já colocava e ia esquentando. Lá não tinha condição nenhuma de fazer comida. Depois fomos nos enturmando, já íamos a um bar do lado, ele começou a fazer comida e começamos a comprar dele. A maioria era do bairro, então ia almoçar em casa. M

P - Até então, a Prodoctor continuava fazendo a distribuição? Carlos Roberto - A distribuição dos produtos Sintofarma e do Aché, porque nesse momento já existiam os produtos do Aché. M

P - Você saberia citar os principais produtos dessa época? Carlos Roberto - Lembro. O Aché tinha o Istilotricin, o Sorine já era dessa época, Dextrovitase, o Combiron já era... Esses eram os produtos do Aché. M

P - Você disse que a sua mulher era da Hipodermia... Carlos Roberto - É, na Hipodermia. Na realidade, lá na Nova dos Portugueses era da Embalagem. Ela era uma menina que ficava na esteira, embalando.

Embalagem manual

P - Eram mais mulheres que ficavam na Embalagem? Carlos Roberto - Era, 99%. Só tinha um homem que ficava lá. Ele se chamava seu Jorge e, se não me engano, era irmão do seu Jonas. Ele já era velhinho, então ele ficava só armando as caixas de papelão. Ele armava as caixas de papelão com fita gomada, aí as meninas pegavam e colocavam o produto dentro. Era engraçado que o laboratório não tinha máquina, só tinha máquina de envase para líquidos, mas a rotuladeira, na realidade, era rótulo de papel. Pegava a cola, colocava em uma madeirinha, e nessa madeirinha passava o rótulo na cola para pôr no vidrinho. (risos) Hoje, não. M

P - Era tudo manual? Carlos Roberto - Tudo manual. Tinha uma máquina de carimbar, mas era tudo com os dígitos regulados na mão, aí carimbava. A Embalagem eram as esteiras transportadoras com as embaladeiras que rotulavam. Era tampado na mão. Colocava a tampa um a um. (risos) M

P - Era tampinha de plástico? Carlos Roberto - Era tampinha de plástico e de rosca. Como você abre a Coca-cola hoje, e depois fecha. Era feito assim. M

P - Tinha uniforme? Carlos Roberto - Tinha avental. Todos nós tínhamos aventais. M

P - Branco? Carlos Roberto - Era branco, avental branco.

Quatro sócios

P - Você falou da presença do senhor Jonas, do irmão dele... Queria que você descrevesse um pouco como era a presença dos sócios-fundadores ali nesse dia-a-dia. Carlos Roberto - O seu Victor e o senhor Miro ficavam no escritório. Nessa época já estava na Álvaro de Carvalho, eles já ficavam lá. Todo o Departamento de Vendas e de Propaganda era na Álvaro de Carvalho, e lá era a fábrica. Lá, quem ficava era o senhor Raphael e o senhor Depieri. O seu Raphael cuidava mais da parte de produção, indústria, construção... Ele sempre foi envolvido nisso. Toda essa parte de disciplina era com ele. Ele era muito ativo nisso. O seu Depieri tomava conta da parte de expedição, que era o produto acabado, o faturamento e a compra da matéria-prima, até de embalagem. Como eu controlava o estoque para o seu Depieri? Acredite se você quiser. Tinha um quadro-negro onde nós fazíamos linhas e colocávamos o nome da matéria-prima. Descrevíamos... Por exemplo, se tinha 30 quilos de amido de milho no estoque, marcava lá. Aí eu pegava as ordens de produção, que eram escritas, era fixas, como se fosse uma receita de bolo, e separava aquilo no que nós chamávamos de pesagem. Levava para a produção, aí eu pegava aquilo e ia dar baixa. Se eu tinha 30 quilos e foi usado um quilo, então tinha 29. Ia dando baixa. Para fazer compra, o seu Depieri ia lá no quadro, olhava se estava baixo e mandava comprar. M

P - Ia anotando tudo com giz? Carlos Roberto - Com giz. Depois começaram a vir os cardex, que eram as fichas, então era tudo feito na mão. Cartucho, bula, rótulo, eram lançados manualmente, ficha por ficha. Tinha um bolo de ficha desse tamanho. Era engraçado porque ali era caminho de passagem de todo mundo e de vez em quando alguém ia lá e mexia com giz. "Ah, você me passou o estoque errado". Eu falava: "Mas eu não mexi". Era brincadeira, até porque era tudo moçada e o pessoal entrava. Mas era bacana

Amigos no Aché

P - Tinha um ponto de encontro, um barzinho lá perto? Carlos Roberto - Não, o que tinha lá... Eu me lembro de uma data... Tem um funcionário no Aché que se chama Emílio, o apelido dele era Rascunho, porque ele era muito bonito... (risos) A sala do seu Depieri era no alto, no andar de cima, e embaixo ficava o faturamento. Tinha um rapaz que se chamava Belo, que tinha o apelido de Guarda Belo. Na hora do almoço, às vezes o seu Depieri saía, e um dia esse Guarda Belo sentou lá na sala do seu Depieri, colocou uma máscara daquelas de carnaval, daquelas que tem um animal com dente, colocou um jornal a frente e gritou lá de cima: "Rascunho". Aí ele: "Oh, sim senhor". Era moleque, garotinho, subiu correndo e bateu na porta. O Belo respondeu: "Entra". Na hora que ele entra, pergunta: "Sim senhor, o senhor me chamou?". Ele pegou, abaixou o jornal e estava com aquela máscara. Ele era um garoto... Quase rolou escada abaixo... (risos) Ficou uma gritaria danada. Eram coisas que aconteciam. Não tinha horário de almoço, um clube, uma mesa de pingue-pongue, então todo mundo ficava fazendo essas peripécias. Era uma loucura total Os encontros eram só no fim de semana. No sábado nós fazíamos os bailes na casa de um, na casa de outro. Adorávamos quando tinha formatura, principalmente no Spéria, na Casa de Portugal... Não sei se hoje ainda existe a Casa de Portugal. A gente adorava essas coisas. M

P - Formatura de escola? Carlos Roberto - É, formatura de escola. Nós arrumávamos 30 convites e todo mundo ia. Era difícil alguém ter carro nessa época. Então íamos um no colo do outro. Eu me lembro de uma vez que teve uma festa do Aché, e um dos funcionários tinha um Pontiac. Olha, da Vila Maria até lá acho que foram uns oito ou dez naquele Pontiac. M

P - O que é um Pontiac? Carlos Roberto - Um carro. Chama Pontiac. M

P - É pequenininho? Carlos Roberto - Não, ele é grande, mas cabem cinco, seis pessoas, e acho que foram umas 12 pessoas dentro. Era tudo uma farra, era muito bom. M

P - A turminha do Aché saía sempre reunida? Carlos Roberto - Sempre, sempre tinha essa turma. M

P - Quem era a turminha? Carlos Roberto - Olha, tem muita gente que hoje já não está mais, mas tinha a Dóris e o Wilson, que hoje são casados... O Wilson e a Dóris se conheceram também na fábrica. Chamávamos o Wilson de Tigrinho. Até hoje Acaba ficando. Era Tigrão, Tigrinho... Então tinha eles, eu com a minha mulher, a Cida, a Marlene, que eram muito garotas... Elas entraram com 13 anos na companhia, então elas nem podiam sair. No máximo, o que podia fazer era mesmo um ir na casa do outro. O pessoal mais antigo dessa época ia em baile. Outro point era mesmo no Imirim, Chora Menino, e nós morávamos na Vila Maria. Então eram os homens que vinham muito para cá. (risos) As mulheres não. M

P - Você falou de vários apelidos. Era comum as pessoas se apelidarem no Aché? Carlos Roberto - Era normal. O Emílio era Rascunho. M

P - Você tinha apelido? Carlos Roberto - Não, eu era Carlinhos. Depois entrou um outro rapaz que se chamava Carlos, ele era muito pequenininho, então começaram a chamá-lo Carlinho Meio Quilo e eu virei o Carlão. (risos) Até hoje sou Carlão. O Sebastião Barbosa era Tião Negrão, o Antonio Russo é Toninho Químico. M

P - Vocês encurtaram para "TQ"? Carlos Roberto - É, TQ. E o Antonio Fernandes é o Toninho Contador, que era TC. Aí foi virando. É uma cultura que ficou. Os traços estão aí até hoje.

Mudança para Guarulhos

P - Qual foi a expectativa da mudança do Aché do Imirim para o Guarulhos? Carlos Roberto - Nós já sabíamos que a obra estava sendo feita. Eles sempre falavam para a gente que empresa ia se mudar e todos sabiam que muitos não teriam condições de ir para lá. Mas quando houve a mudança, eles colocaram ônibus. O primeiro ônibus da Manzi Turismo começou a fazer o transporte. Ela ficou conosco eu acho que até uns 10 anos atrás. Então tinha um ônibus que levava e trazia o pessoal. Se eu não me engano eram duas linhas. Nesse período teve muita gente que não quis ir, mas a maioria foi. E realmente é longe. São mais de 20 quilômetros, eu acho que uns 25 quilômetros. Depois que estava lá em Guarulhos se tornou difícil estudar. Eu estudava no Colégio Salete, em Santana. Quando o Aché foi para Guarulhos, eu já estava casado, me casei em 1979, e conversei com a Olinda, aí eu fui fazer a faculdade em Guarulhos também. M

P - O que você fazia nessa escola? Carlos Roberto - Colegial. Fiz o ginásio na Vila Maria, no Colégio Industrial, e depois eu fui fazer o colegial no Colégio Salete, em Santana. M

P - Você trabalhava de manhã? Carlos Roberto - Trabalhava o dia inteiro e estudava à noite, sempre foi assim.

Casamento

P - Como foi o seu casamento? Carlos Roberto - Foi na Vila Maria, na Igreja Santa Zita. Foram todos os nossos amigos. O Toninho e a mulher dele foram meus padrinhos de casamento. M

P - Ele não aprontou nenhuma com vocês? Carlos Roberto - Não, até que não. Os meus primos, sim. Puseram microfone e começaram a cantar dentro da minha casa. E naquela época não era karaokê, não existia isso ainda. A festa foi muito restrita porque não tínhamos condições, então nos despedimos na igreja e a festa só foi em casa, só para os padrinhos e parentes, que eram os convidados. A minha lua-de-mel foi em Santos e os meus primos foram atrás de mim até lá, andaram atrás de mim até no apartamento. (risos) Chegaram lá embaixo, era de madrugada, queriam que a gente fizesse café para eles, mas é claro que a gente não fez. (risos) Eles levaram a mala, falaram: "Não, pode deixar, eu faço questão de levar a mala para você". Quando levaram a mala, chegamos cansados, à noite, fomos abrir, estava tudo amarrado, tinha pilha, tinha vaselina, tinha um monte de coisa dentro. O carro todo pintado, de recém-casados... Foi em São Vicente. M

P - E eles desceram a serra buzinando? Carlos Roberto - Foi uma bagunça até o pedágio, que já tinha. Uma vergonha danada, porque você é do interior e não está acostumado com esses negócios. Mas foi muito bonito. Foram os primos e alguns amigos que foram atrás. M

P - Como era sua roupa de casamento? Carlos Roberto - Linda Bom, o meu cabelo era até aqui. (risos) Foi com terno xadrez avermelhado e calça boca não de sino. M

P - E a gravata? Carlos Roberto - Gravata vermelha, toda quadriculada também... Gravatona M

P - E a noiva, estava bonita? Carlos Roberto - A noiva sempre... A noiva fica uma maravilha de branco. Meu Deus... As mulheres é que gostam mais, mas o homem também, na hora que vê aquilo lá, treme. Tem gente que fala que homem não liga para nada, mas na hora que começa a cumprimentar, a dar os parabéns, começa a dar um nó na garganta. (risos) M

P - Ela parou de trabalhar logo depois que vocês se casaram? Carlos Roberto - Não, ficamos quatro anos sem filhos. Aí, quando nasceu o primeiro filho ela saiu. M

P - Então teve uma época que vocês estavam casados e os dois estavam trabalhando no Aché? Carlos Roberto - Isso. Durante quatro anos trabalhamos juntos. Nós íamos e voltávamos. E essa vida foi terrível porque eu estudava, então não tinha jeito. O que nós fazíamos? Vínhamos os dois correndo. Enquanto eu tomava banho, ela fazia a janta. Ela terminava a janta, eu ia comer. Aí era ela que ia tomar banho. Quando ela estava comendo, eu estava me trocando, saindo para o colégio, que depois de casado fui fazer o Colegial. E foi assim também na faculdade de Guarulhos. M

P - Qual curso você fez? Carlos Roberto - Fiz Química, na Universidade de Guarulhos. Foi a mesma coisa. Só que aí foi a época do famoso boom da gasolina, então não tinha mais condições. A gente falou: "É melhor ir para Guarulhos". Nós alugamos uma casa em Guarulhos, a faculdade era perto e eu ia à pé. Com os dois trabalhando, eu consegui comprar o primeiro carro, um Corcel 73, que era do Vavá, que era diretor de Vendas, ele não é mais. (risos) E é engraçado que o Victor estava presente, ele me ajudou também a comprar o carro. Ele deu o primeiro pontapé. M

P - Até então era tudo transporte coletivo? Carlos Roberto - Exatamente. Meu primeiro carro foi esse. Eu tenho até hoje o documento do carro, que era o Corcel 73, porque era com a assinatura do Vavá, que transferiu. Foi o primeiro carro.

Mudança para Guarulhos

P - Eu queria que você lembrasse um pouquinho mais essa mudança para Guarulhos. Carlos Roberto - Quando os caminhões começaram a ir, ficou um grupo aqui despachando e um outro grupo recebendo e guardando, e a gente tinha uma ansiedade tão grande que, às vezes, a gente trocava: "Não, eu quero ir lá ver como está". E a gente via aquele laboratório tão lindo, maravilhoso... O que a gente pôs no estoque, praticamente usou 50% que tinha lá, porque a gente estava acostumado com tudo apertadinho. Depois não, depois a gente foi arrumando, dando mais espaço, aí sim começou a melhorar. Mas era uma ansiedade tão grande, que eu lembro que um dia, no sábado, eu fui buscar uma mercadoria e pus no meu carro para levar para o Aché. Coisa de louco. Não precisava disso. Chego lá, aí fala o Raphael: "O que foi?". "Ah, aproveitei que vim para cá, trouxe matéria-prima". "Mas não pode, rapaz Tem que vir com nota fiscal, tem que tirar direitinho". Você achava que aquilo era teu. M

P - A mudança começou numa sexta-feira? Carlos Roberto - Isso. Olha, na segunda-feira estava tudo mudado, estava todo mundo lá, estava produzindo normal. M

P - E já estava tudo pronto? Carlos Roberto - Já, tudo pronto. M

P - Antes de ficar tudo pronto, vocês chegaram a visitar o local? Carlos Roberto - Chegamos. Todos os funcionários até ganharam uma foto. Foi feito um churrasco lá com os vendedores, com os funcionários, todos que estavam lá. E mostraram aquilo. Aquilo para a gente era uma coisa maravilhosa. Era uma satisfação incomensurável. Falei: "Meu Deus, aonde estou?". Na Nova dos Portugueses era um lugar gostoso de trabalhar, mas era muito acanhado, muito apertado, a casa velha, tudo com escada, não podia usar carrinho. Lá não, tudo plano, tudo limpinho, tudo de granito, como é até hoje. É a mesma coisa de mudar para casa nova, é um prazer danado. E foi a mesma coisa nessa época. Aí tinha carrinho, que nós nem estávamos acostumados a usar. Não sabia nem usar carrinho hidráulico. Aprendemos a usar. O próprio vendedor que vinha, ensinava para gente. A mudança, a gente passou meio bobo acho que uns seis meses. E você tinha orgulho de falar: "Eu trabalho ali naquele lugar bonito". O refeitório não era fabricado ainda, mas ele já tinha uma estrutura boa. Tudo bem arrumado, só que nós comprávamos a comida. Comprava comida e lá aquecia. Esquentava direitinho. Se eu não me engano vinha do Sesi, e depois uma outra companhia, que eu não me lembro mais. Mas ia naqueles caldeirões grandes, bem arrumadinho, bacana também. M

P - Os funcionários compravam ou era o próprio Aché? Carlos Roberto - Não, o Aché que comprava. M

P - E você disse que ficava... Carlos Roberto - Olhando de cima, ele tem todo um contorno, e o Ruy Ohtake chamava aquilo de ameba. (risos) Aquilo ficou com nome de ameba porque olhando de cima parece realmente uma ameba. M

P - Esse foi o primeiro restaurante? Carlos Roberto - Foi o primeiro restaurante. M

P - E depois, sai daí e vai para onde o restaurante? Carlos Roberto - Bom, aí foi o Aché I. Foi construído o Aché I, depois foi o Aché II. No Aché II, na parte do térreo foi construído um refeitório com toda estrutura, com câmara frigorífica para fabricar mesmo a comida, já com capacidade, eu acho que de 500 pessoas. É um negócio muito bonito, estúpido de grande. Aí sim já era fabricado tudo lá. Desde então o Aché começou a fabricar, a fazer a sua comida, como é até hoje. É uma coisa perfeita, muito bem feita, muito bem cuidada. Até hoje é assim. M

P - O de hoje é o terceiro restaurante? Carlos Roberto - É o terceiro restaurante. M

P - No Aché V? Carlos Roberto - É, no Aché V.

Trajetória no Aché

P - Quando você foi para Guarulhos, qual era a sua função? Carlos Roberto - Na época eu já era encarregado. Era o nome que eles davam. M

P - O que fazia o encarregado? Carlos Roberto - O encarregado era abaixo do chefe, vamos dizer assim. Aqui na Nova dos Portugueses, eles me colocaram como encarregado. Eu tomava conta de todo Almoxarifado, de matéria-prima e material de embalagem. Quando foi para Guarulhos, a Pesagem também já foi estruturada, já tinha uma estrutura maior, eles me deram tudo quanto era parte de estoque, que não era acabado para mim: impresso, matéria-prima, material de embalagem, semi-fabricados... Eles me deram tudo. Eu gostava muito de organizar, gostava das coisas bem arrumadinhas, contadas. Eu sempre tinha aquilo, uma linha... Até o estoque eu gostava que fosse bem alinhado, arrumadinho, limpo. Então, já começou desde essa época, tanto é que no Almoxarifado fiquei durante dez anos. Eu prestei vestibular, e um dos donos, o seu Raphael me convidou para ser assistente do Toninho na produção. Então começou todo o envolvimento.

Mudanças na Produção

P - Nos primeiros anos do Aché em Guarulhos, como estava organizada a produção? Carlos Roberto - Da Nova dos Portugueses para Guarulhos era completamente diferente. Onde nós tínhamos estufa estacionária, lá no Aché já tinha a estufa com leito fluidizado. Leito fluidizado é igual aquela pipoca, que fica jogando assim, o granulado fica assim. E esse é o primeiro equipamento que... Inclusive o Toninho Químico foi quem "startou" esse equipamento, os primeiros testes foram feito lá. Foi com o Somalium, inclusive. M

P - Mas, a grande diferença foi de equipamentos? Carlos Roberto - Primeiro, foi física, porque foi completamente diferente. Na época, já era dentro das normas de GMP, o que foi um grande salto. Hipodermia com fluxo laminar, as máquinas de ampola todas... Era igual, mas já num ambiente diferente. O setor de Líquido tinha tanques maiores porque os tanques aqui na Nova dos Portugueses eram tanques de 300, 400 litros. Lá já era tanque de três mil litros. Na Nova dos Portugueses a embalagem era manual e lá já tinha encartuchadeira. Nessa época eu não era da Produção. Eu fazia parte, mas era do Almoxarifado. Não tinha máquina... Tinha máquina de carimbar, a máquina de envase de líquido. Quando foi para lá, já foi com as máquinas envasadoras compradas, que já colocava a tampa, já fechava, já colocava etiqueta, rotulava. Embora fosse com cola, a própria máquina que fazia, já com conceito de fabricação de área limpa para área cinza, que naquela época, nós não sabíamos, mas já era esse conceito. O Aché daquela época com o Aché de hoje já é completamente diferente. Já está muito mais moderno. Quer dizer, hoje praticamente não tem mais máquinas daquela época. Quando nós saímos de Santana, da Nova dos Portugueses para Guarulhos, quase não tínhamos máquinas. Praticamente se saiu de quase tudo manual para muitos equipamentos, mas ficou muita coisa manual. E daquela época de início de Guarulhos para hoje... Hoje eu tenho duas linhas de Sólidos e duas de Semi-sólidos que são manuais. O resto é tudo automatizado. Hoje nós temos mil funcionários. Na fábrica nós temos 500. Naquela época, no máximo, na fábrica, se tivesse, eram 200. Era Aché I e hoje nós estamos no Aché VIII, IX. M

P - Lá no Imirim eram quantos funcionários? Carlos Roberto - Olha, era pouco. Eu lembro das chapeiras que vinha construindo, era 25. Eu acho que se tinha lá no Imirim uns 100, 150 era muito. Estou até exagerando até. M

P - O que ficou ainda sendo manual nessa mudança para Guarulhos? Carlos Roberto - Naquela época os propagandistas às vezes bolavam coisas que exigiam o trabalho manual. Tinha aquela do trenzinho... Era principalmente amostra grátis. Isso é muito difícil de você automatizar, não tem jeito. Embalagem sextavada, embalagem quadrada, aqueles estojos... É difícil você automatizar. Então, para atender principalmente a parte de vendas e de propaganda, que eram as amostras, era tudo feito manual. M

P - Mesmo hoje? Carlos Roberto - Não, hoje não. Hoje já é diferente. O pessoal de Marketing tem muito contato com a Produção, Engenharia e Marketing, com desenvolvimento de embalagem, desenvolvimento de produto. Hoje já tem essa sinergia, esse contato. Você vê o que é melhor para a empresa, não porque é melhor para fulano ou para cicrano. Já é bem diferente. Hoje, todas as linhas são automatizadas. Linha de Líquidos, todas automatizadas. Compressão, todas automatizadas. Semi-sólido, Envase, tudo é automatizado. Embalagem, 95% automatizado.

Setores de Produção

P - Como estavam divididos os setores da produção nessa época da mudança para Guarulhos? Carlos Roberto - Tínhamos Almoxarifado junto com a Pesagem, Almoxarifado já separado da Expedição, uma Expedição já com produto acabado, só produto pronto. Tinha o setor de Líquidos, que o setor de Líquidos era junto com o setor de Creme. Tinha Hipodermia, que hoje não tem mais. M

P - A Hipodermia eram os injetáveis? Carlos Roberto - Isso. Tinha Sólidos e tinha a parte de Embalagem nessa época. M

P - Dessa estrutura de 1973 para hoje, houve modificações? Carlos Roberto - Sim. M

P - Substanciais? Carlos Roberto - Muito, muito. Tinham duas linhas de Líquido, hoje tem oito. Semi-sólidos tinha uma batedeira só com uma maquininha de envasar, hoje nós temos duas máquinas de envasar, quatro batedeiras, uma sala completamente separada, classificada, uma outra área classificada só para envase. Blister, tem seis linhas só de blister. Embalagem, tem seis máquinas de embalagem, duas manuais. Nós temos quatro linhas totalmente automatizadas de Sólidos. Líquido hoje é um... De máquinas de compressão hoje é o top que tem no mercado. M

P - Como era a parte de Controle de Qualidade quando vocês fizeram a mudança para Guarulhos? Carlos Roberto - Também foi uma coisa muito bem estruturada, também já separada. Eu sei que teve época que já foi montado um Controle de Qualidade completamente separado. M

P - Um departamento? Carlos Roberto - Um departamento. Até então ele era meio misturado com a produção. Agora, quando mudou para lá ,já passou a ser uma área dedicada só ao Controle de Qualidade, já com mais equipamentos também. Não saberia dizer quais eram equipamentos, mas também com muitos equipamentos novos.

Responsabilidade Social

P - Nesse dia-a-dia dos trabalhadores, você tinha um contato grande com as pessoas que trabalhavam na fábrica, na Produção? Carlos Roberto - Sim, porque eu trabalhava no Almoxarifado e entregava o material para a Produção, embora eu já fosse chefe nessa época, mas eu tinha muito contato com eles. O pessoal entregava na Produção, mas eu estava sempre junto, sempre estava no meio. M

P - Você sabe se já existia uma política de prevenção contra acidente de trabalho? Carlos Roberto - Começou aí já uma preocupação com segurança do trabalho, começou ter as primeiras Sipats, Cipa... Eu fui um dos presidentes da Cipa também. Então já começou uma estrutura de uma empresa grande mesmo. Isso começa a acontecer quando houve a mudança para lá. Aí que tudo isso começa a se estruturar, mesmo que de forma acanhada, com um só Sipat... Tinha o pessoal da segurança, mas era muito pequenininho, mas já começou a se consagrar, se consolidar. Ambulatório médico... M

P - Como era o ambulatório? Carlos Roberto - O ambulatório médico era só uma sala que tinha uma enfermeira, que vinha médico de fora. Hoje não, hoje tem um médico full time. Hoje tem três, quatro médicos já trabalhando dentro da companhia. M

P - Para várias especialidades? Carlos Roberto - Exatamente. Antigamente tinha um médico do trabalho que vinha, ficava meio dia, que o número de funcionário não necessitava. Hoje não, o médico do trabalho fica full time, tem um especialista, tem dentista, tem salas para descanso... É um mini hospital hoje que tem.

Mudanças na distribuição

P - E como passou a ser o sistema de entrega de medicamentos? Carlos Roberto - É, aí passou a ser por transportadoras. Já mudou. Então, o que acontecia? Nós separávamos os pedidos, aí vinha a transportadora, pegava e ia entregar. Nessa fase já era transportadora que fazia as entregas. Já não era mais a gente. M

P - E vocês tinham alguma relação com as filiais? Carlos Roberto - Não. M

P - Nenhuma? Carlos Roberto - Nada, nada. A relação era mandar os produtos para as filiais porque no início o Aché começou a fazer as filiais no Brasil inteiro e tinha o depósito lá. Nós mandávamos para eles, de lá fazia a distribuição. M

P - Você lembra quando parou de ter depósito? Carlos Roberto - Não sei dizer a época certinha, mas lembro bem disso, acabou-se com as filiais, vamos dizer assim, e começou depois usar as distribuidoras, as distribuidoras que começaram a entregar. M

P - Aumentarm o espaço de estoque no Aché de Guarulhos ou continuou igual? Carlos Roberto - Não, a Expedição sempre foi um lugar que, vamos dizer assim, era o nosso termômetro. Então, sempre que a Expedição estava cheia, não tinha espaço, aí começava a ampliar. Ampliava para a Expedição, ampliava para o Almoxarifado. Sempre foi o nosso termômetro. Relacionava que estava fabricando bem, estava vendendo bem. Das filiais mesmo, eu não me lembro a partir de quando tinha estoque. Eu sei que daqui nós mandávamos para a Expedição, da Expedição é que mandava para as filiais. A Expedição não era a minha área. O meu era Almoxarifado. Não lembro muito bem.

Lazer no Aché

P - Como passou a ser a relação entre as pessoas com a mudança para Guarulhos? Carlos Roberto - Veja, nós não conhecíamos Guarulhos. Com o tempo, como começamos a fazer as amizades? Nós começamos o jogo de futebol, nós já jogávamos bola. Começaram os campeonatos internos, porque havia uma quadra que foi feita. Já começou a integração do pessoal. As meninas vinham assistir o jogo... Com o tempo o pessoal de São Paulo também foi ficando muito longe, foi se afastando, muitas pessoas foram demitidas, pediram a conta... Poucas pessoas ficaram de Santana, pouquíssimas. E as que ficaram já tinham um nível de supervisão, já estavam casados... Então começou praticamente a era Guarulhos, mesmo. Em Santana o pessoal fazia os bailinhos, mas lá em Guarulhos esse tipo de atitude já foi ficando mais restrito. Por quê? Porque aí já estávamos casados, já tínhamos uma família, começou um outro lado. Mas foi desenvolvido um setor de lazer. Tinha o lado de esporte: fazíamos campeonato feminino, campeonato masculino, começou aparecer o primeiro grêmio, que era uma sala que tinha uma mesa de pingue-pongue, aquele joguinho de taco. Aí começaram os primeiros passos do grêmio. M

P - Onde ficava esse primeiro grêmio? Carlos Roberto - O primeiro grêmio ficava no térreo, aonde hoje são os vestiários dos supervisores. Era muito pequeno. Depois, ele foi para um lado onde era a Manutenção, porque quando faltava espaço era o grêmio o primeiro acabar. (risos) Depois foi para onde é o ambulatório médico. O grêmio sempre foi mudando, até que a direção da empresa construiu o grêmio que tem hoje. Acho que faz uns nove anos, mais ou menos. Quando construiu, o senhor Victor me chamou na sala dele e falou: "Você é o presidente do clube". (risos) Falei: "Bacana". Só que não tinha nada estruturado. Não tinha estatuto, não tinha contabilidade, não tinha nada. O que nós fizemos? A gente se estruturou. Terceirizamos a contabilidade, o estatuto nós pegamos da Pfizer, pegamos da Schering do Rio de Janeiro, fizemos lá um mix daquilo, montamos o nosso. Ficou assim até a época em que foi lançado o famoso time da Dayvit. Depois disso a companhia mesmo que foi atrás de especialista, de advogado, de esporte... Aí se fez um novo estatuto. M

P - O contrato com as moças do vôlei, do time Dayvit, foi através do grêmio? Carlos Roberto - Foi através do grêmio, só que gerenciado pelo pessoal da companhia, pelos vendedores, pelo pessoal de Marketing. M

P - Antes de ter esse grêmio vocês jogavam futebol fora do Aché?

R - Nós saíamos para Guarulhos, Santana, Penha. Tanto é que a própria empresa viu isso e montou uma quadra lá dentro. Fez a primeira, fez uma outra... Sempre teve. Society, de terra, outra de areia... Sempre teve, sempre. M

P - Vocês tinham uniforme? Carlos Roberto - Tínhamos uniforme. M

P - E tinha nome? Carlos Roberto - Tinha. Era Aché. M

P - Houve algum jogo que entrou para a história? Carlos Roberto - Ah, teve vários. Nós disputamos campeonato em Guarulhos pelo Festival da Primavera. Teve jogos primorosos. Teve até brigas primorosas, porque sempre sai. Mas a briga se resolvia ali mesmo, na naquele momento. Saiu dali, acabou e pronto. Não tinha nada de faca, tiro, não existia isso. M

P - Lá no Aché tinha lugares específicos onde homens e mulheres se reuniam? Faziam-se esses clubinhos separados? Carlos Roberto - Olha, não me lembro disso. A partir do momento que tinha o grêmio, quem mais freqüentava mesmo eram sempre os homens, mas depois que começaram a colocar academia, esteira, as bicicletas, aí não. Começou a mudar, porque a maioria do Aché é mulher. Então as mulheres começaram a freqüentar mais o grêmio.

Uniformes no Aché

P - Você disse que na Nova dos Portugueses o uniforme era um avental. Carlos Roberto - Isso. M

P - Quando passou para Guarulhos, mudou? Carlos Roberto - Aí acabou o avental. Começaram uniformes bem diferenciados, muito bonitos, já com calça, sapato, jaleco... Era diferenciado pelo seguinte... Por exemplo, eles eram magenta. Mas na Expedição, a gola era de uma cor, o da Química era verde, por exemplo. O do Almoxarifado, a gola era preta. O da Expedição era gola marrom e o Controle de Qualidade era branco. Era muito bonito, muito bonito mesmo. Só que começou ficar inviável, porque o Aché começou a crescer muito e esse tipo de uniforme começou a ficar inviável, tanto é que foi trocado. Hoje é tudo branco, mas com calça e jaleco. M

P - Teve um momento que foram introduzidas algumas coisas descartáveis? Carlos Roberto - Sim, com o próprio tempo começaram a ser introduzidas. Até então os gorrinhos eram de pano, depois foram substituídos por gorros descartáveis. Em muitos lugares tem aventais descartáveis. São exigências da própria indústria farmacêutica. Ela foi se tornando diferente e cada vez mais rigorosa nisso. Aí vieram alguns descartáveis.

Trajetória no Aché

P - Pensando na sua trajetória, a gente tinha parado quando você estava no Almoxarifado, como supervisor. Qual foi o próximo estágio? Carlos Roberto - Eu entrei para a faculdade em 1978 e fui convidado para trabalhar na Produção. Eu entrei como assistente de produção. A partir de assistente de produção, eu trabalhava em todas as áreas. Aí, quando de assistente me chamaram para ser gerente de produção da parte de Líquidos, já tinha a Química. Depois disso, me chamaram para ser gerente de Sólidos. Foi vindo naturalmente. Depois, juntaram Sólidos e Líquidos para eu tomar conta, aí eu fiquei gerente da área de Sólidos, Líquidos e Semi-Sólidos. E depois foi tendo outra mudança. Colocaram Embalagem. O próprio Toninho evoluiu, subiu, foi como diretor, eu acabei ficando no lugar dele. M

P - Você sempre trabalhou muito próximo dele? Carlos Roberto - Sempre trabalhei com ele. M

P - Como foi a relação de amizade no trabalho? Carlos Roberto - Sempre uma relação de respeito e bastante profissional. Aprendi muito com ele porque ele é uma pessoa que dá muita liberdade para o que você executa, mas ele te cobra isso. Desde que a gente iniciou esse trabalho, ele me deu sempre muita liberdade, sempre o tive como uma pessoa para trocar algumas idéias na hora das necessidades. A partir do momento que ele ficou como superintendente ele me deixou muito mais tranqüilo, vamos dizer, mais à vontade porque eu assumi a direção toda da parte industrial. Agora o nosso relacionamento é mais assim: "Como estão as coisas? Está tudo bem? Está ótimo?". Tem já tudo consolidado, tudo estruturado. Hoje ele passa só para ver como andam as coisas mesmo. M

P - Nesses anos todos, tem alguma outra pessoa com quem você tenha aprendido muito? Carlos Roberto - Teve. A vinda da Parke-Davis para cá representou uma mudança grande no nível de qualidade, de controle, de procedimentos. Foi um grande pulo. Até então nós tínhamos aquela cultura da indústria nacional. A Parke-Davis já tem aquela cultura americana: procedimento para isso, tudo que você faz tem que estar registrado, só que de uma outra maneira. Nós tínhamos tudo isso, mas de uma maneira mais sucinta. Com a vinda da Parke-Davis passou a ser de uma outra maneira, mais detalhada e, a partir desse momento, toda a empresa aprendeu. Embora nós tenhamos melhorado todos os produtos da Parke-Davis, nós aprendemos com eles também esse controle. A gente aprendeu muito com eles e principalmente com a pessoa que era a representante deles, que até hoje trabalha no Aché, que é a Hilda. Essa pessoa nos ensinou muito. Ela é uma pessoa honestíssima, com muito carisma, justa, que gosta das coisas muito sérias, muito certinhas. Isso nos aproximou muito dela e hoje eu digo que eu aprendi muito com ela nesse aspecto. No geral, eu acho que não só eu, mas muita gente. M

P - Como você avalia essa escalada de funções? Carlos Roberto - Para mim sempre foi desafio, sempre. Eu era assim, trabalhava no Almoxarifado, vinha o dono da empresa e falava: "Olha, eu preciso de alguém para me arrumar, organizar tal departamento". "Ah, pode deixar". Eu ia para lá. O Departamento de Compras do Aché fui eu que comecei também. Só que quando eu fui para lá, ele me falou: "Eu quero que você estruture e você vai voltar para a Produção". Então, o Departamento de Compras, a gente que preparou o talão de pedido, cotação que não tinha... Eu tenho muito essa facilidade de organizar, de estar arrumando, organizando, controlando. Era sempre assim. Trabalhei nas compras, fui supervisor de lá, voltei para Produção. Na Produção, começou com a Indústria Química: "Estou precisando de alguém que fique na Química". "Então vamos lá". Fomos para a Química. "Ah, mas olha, o Líquido está aí de pé, não dá para ficar ali, Química e Líquido separado". Aí fiquei com a Química e com Líquido. "Olha, estamos com problema sério no Sólidos, a gente não consegue, não sai...". "Então vamos para lá". Só que nisso, invés de tirar, eu ia agregando, mas eles sempre me elogiando. Durante todo esse período do Aché trabalhei como encarregado, supervisor, fui gerente de Sólidos, gerente de Líquidos, gerente da Embalagem, Química, trabalhei no Suprimentos, me deram o grêmio, fui presidente da Cipa... Até que um dia me colocaram como diretor. Eu lembro que, na época, eu fui diretor e ganhava menos que um gerente até. Eu falava: "Não tem problema". As coisas foram se estruturando e foi sempre assim. Sempre o Aché vem: "Volta Almoxarifado para você". M

P - Essa evolução era um sonho seu? Carlos Roberto - Olha, quando nós éramos garotos, trabalhávamos na Nova dos Portugueses, nós víamos o seu Miro todo bonitão, o seu Victor, o Vavá, aquelas pessoas naquela estica danada, trabalhando de venda... Nós os tínhamos como deuses. A gente falava: "Um dia a gente chega lá". Mas eu não imaginava isso. A gente sempre tinha aquilo como espelho. Todos eles que viram, falaram: "A gente chega lá", porque os donos eram os donos e os outros eram funcionários, e a gente sabia disso. Hoje, eu acho que sou o segundo diretor da companhia que chega em uma posição como essa e que começou com eles trabalhando de office-boy. Eu sou o segundo a acontecer isso aí. Um já saiu da companhia e eu estou até hoje. Quer dizer, hoje, eu sou o único. M

P - Você imaginava isso? Carlos Roberto - Eu imaginava que eu chegaria lá. Até estou fazendo uma outra faculdade hoje. Eu invisto em mim, eu faço pós-graduação, eu vou para a FGV... Talvez não aparente isso, mas eu sempre estou procurando isso, sempre Sempre investindo em mim porque eu sei que mesmo voltando a estudar tarde, a companhia olha para isso.

Crescimento do Aché

P - Assistindo todas essas mudanças da empresa, como você vê a história do Aché? Carlos Roberto - Olha, nunca vi ninguém falando assim: "Nossa, há quanto tempo que eu não vejo uma obra". No Aché todo ano tem obra. Você vê só crescimento, seção reformando, ampliando, aumentando. Parece uma coisa que não tem fim. Às vezes eu pego essas fotos e vejo. Eu tenho a fotografia dos quatro, depois só tinha os três. Eu não consigo vê-los separados. Para mim, eu trabalho para os três. Engraçado, mas toda vez que eu falo do Aché, lembro dos três. Não vejo um separado do outro. Então eu me lembro de quando estava no Almoxarifado e os filhos deles iam brincar de patinete com os nossos carrinhos hidráulicos. Hoje eu estou trabalhando para os filhos. Eu falo: "Puxa vida, eu estou envelhecendo mesmo". (risos) Estou envelhecendo mas estou vendo um negócio bonito. Você vê uma empresa que tinha 50, 60 funcionários. Hoje ela está com mil, mil e cem, mais ou menos. E eu sempre os vejo trabalhando conosco. Quando estou na Produção, às vezes tenho a impressão de que um deles está me olhando, está do meu lado. Quando você está trabalhando lá, parece que está junto com eles, desde que você começou. Aquela presença física... Hoje eles não estão lá, e nós estamos fazendo com que aconteça isso para eles. Então, acho que eles nos ensinaram, a gente aprendeu muito e eu acho que deixou raiz para que a gente continuar a obra deles com os filhos. Os três já não estão mais, mas estão os filhos deles. Eu acho que é esse o filme que a gente fica vendo. Eu falo: "Daqui a pouquinho, será que estarão os netos deles?". Provavelmente não, porque mudou um pouco. Agora está mais profissional, mas você fica enxergando, fica vendo: "Puxa vida, parece que a empresa perpetuou, ela está perpetuada". M

P - Carlos, você fez viagens para o exterior? Carlos Roberto - Fiz. Engraçado, sempre está aí a presença do Victor. A primeira viagem foi para a Alemanha, e foi quando ele assumiu a parte toda de RH, Industrial, toda essa parte. O que eu não saí de vinte e poucos anos dentro da empresa, em dez anos eu visitei, não só empresas, mas eu fui para fora duas vezes. Fui para a Alemanha, duas vezes para a Argentina e agora vou novamente para a Alemanha. Quer dizer, até isso eles nos proporcionaram, para que você vá ver tecnologia, ver o que está acontecendo lá fora, ver o que há de oportunidade de aplicar aqui dentro. E eu tenho dado sorte. Cada vez que a gente sai, é sempre alguma coisa que você vê, traz, implanta, implementa. Isso também foi uma coisa não só de satisfação pessoal, mas também trouxe a parte de benefício para a companhia. M

P - Você falou que voltou a estudar. Está fazendo um outro curso de graduação? Carlos Roberto - Depois que eu terminei Química eu fiz muitos cursos tipo pós-graduação. Mas você vai percebendo que, na realidade, agora, você precisa de outras ferramentas para que você comande isso. Então eu estou fazendo uma graduação em Administração. Agora, esse ano, eu faço 51 anos e termino a faculdade de Administração. Voltei para fazer e, pelo que eu senti, eu sempre gostei disso, só que agora eu faço uma coisa muito mais estruturada, eu sempre fazia curso, agora não. Eu acabei pensando na carreira porque a gente vê que realmente você precisa ter alguma coisa estruturada, como diploma, como currículo mesmo. Então, eu já estou pensando em fazer uma pós-graduação específica no ano que vem, MBA. Tenho um sonho de fazer MBA. Vou fazer MBA na área de Produção. M

P - O Aché sempre incentivou que você fosse fazendo esses cursos fora? Carlos Roberto - Não, não. Nunca o Aché pediu: "Você deve fazer isso". Não, não. M

P - Isso era uma coisa da sua iniciativa? Carlos Roberto - Exatamente. Pelo contrário, eu acho que eles deviam ter feito isso.

Dia-a-dia atual

P - Eu queria que você descrevesse um dia de trabalho seu, hoje. Carlos Roberto - Olha, eu levanto às seis da manhã; dez, quinze para as sete eu já estou na fábrica. Vou tomar café com o pessoal, eu espero o pessoal entrar todo na fábrica, eu encho o saco de todos eles, cumprimento quase todo mundo, praticamente. Eles vão para a seção, eu vou para a minha sala, limpo a minha caixinha que eu tenho que fazer os meus e-mails e vou para a Produção. Passo em todas as seções, em todas: Almoxarifado, Produção... E sempre tentando motivar todo mundo. Gosto disso, do pessoal motivado, alegre, gosto disso e sempre vou vendo uma oportunidade de melhorar: uma limpeza, uma máquina, ou uma seção... Eu peguei isso muito da companhia. A companhia me ensinou muito isso, sempre quando você está conversando em uma esteira, em uma máquina, o que você sugere, o que você acha que a gente tinha que mudar, o que nós tínhamos que fazer e sempre escutando, anotando... Pode ver que, até internamente, a fábrica está totalmente mudada em função disso também. Você escuta, vai mudando... Se não atingiu a produção naquele dia, se questiona o que houve. Se atingiu, brinco com o pessoal: "Parabéns". E você vai passando seção por seção. À tarde, depois do almoço eu vou para a minha seção e aí começo a me preparar para o outro dia. Às vezes faço reuniões com o pessoal para tentar melhorar, aí você vai com planejamento mesmo. Discutimos formas de melhorar, de dinamizar a produção, se as metas foram ou não atingidas, falamos porque é preciso estar atento, se tem que fazer um planejamento... Você tem que prever lá na frente. Hoje, você tem que fazer isso e você tem que ter meios para fazer isso. Então, é isso que a gente vai buscando com o pessoal. Procura fazer sempre reunião com os gerentes, convido supervisores para participar, às vezes líderes. Já convidei até operadores de máquinas para participar da reunião. Então, o meu dia-a-dia é um dia na fábrica com o pessoal. Às vezes eu fico focado em um lugar só. Às vezes nós estamos com problema, então eu fico junto com o pessoal. Hoje já mudou muito também essa parte profissional. Eu tenho pela empresa mais sete anos para trabalhar. Eu tenho gerentes que tem cinco anos, eu tenho gerentes com dois anos e meio. Então, o que nós estamos fazendo de alguns anos para cá? Nós já estamos substituindo todos nós. Não só a minha equipe de gerente, como a mim mesmo. Então, já estou fazendo isso há muito tempo. Hoje, você vai perceber que, em cada área, cada supervisor, o perfil dele já é diferente do nosso. Os supervisores da Produção já são farmacêuticos, universitários e formados. Você vai na Embalagem, no Sólidos, no Semi-Sólidos, na Pesagem, no Líquidos, são moços, são pessoas beirando os 30 anos, todos eles já estão sendo preparados para substituir os gerentes. Duas vão sair daqui a dois anos e meio e a outra vai sair daqui a cinco anos. Esse pessoal também já está sendo preparado para assumir o lugar deles. E no meu lugar, um deles deve entrar, embora eu pense que, pela própria administração que nós estamos, isso vai ficar muito mais restrito. Eu vejo alguém tomando conta da produção, mas junto com o supervisor, com o gestor da seção. Provavelmente, esse cargo de gerente vai se extinguir. Por quê? Porque a fábrica está automatizando, vai diminuindo o número de operadores. Não há necessidade disso, de um tomar conta do outro... Líderes de linha, essas coisas, deve acabar tudo. Provavelmente vai estar assim: alguém tomando conta da Produção como um representante e cada seção com um gestor. Os demais, que nós estamos implantando em ferramentas, TPM, porque dá liberdade para o próprio operador que ele tome conta da máquina, ele sabe a hora que tem de lubrificar, ele tem que tocar, ele sabe, ele tem a programação dele. Não preciso do papel mais do líder da linha, do líder daquele grupo. Hoje já tem PCP, que faz o planejamento da seção. Muito provavelmente, isso vai ser muito achatado.

Sonho para o Aché

P - Você tem um sonho para o Aché? Carlos Roberto - Eu gostaria muito de ver essa fábrica nova funcionar. Me doeu muito quando eles falaram em parar a fábrica porque a fábrica, quando você olha aí fora, ela parece que está crua, mas internamente ela está praticamente completa. Essa fábrica, a hora que ela estiver rodando, isso aqui vai ser um sonho, isso aqui vai ser uma... Quando eu vejo os desenhos, que eu tenho esse hábito de ficar vendo as plantas, eu vou na fábrica visitá-la e já a vejo com as divisórias, com ar-condicionado, tudo posicionado, piso colocado, os reatores instalados. Eu sei que é muita grana para ativar ainda, mas a maioria já foi. Eu acho que se houvesse aí um empenho maior das cabeças em pensar nisso, valeria a pena tocar essa fábrica. Eu conheço muitas indústrias nacionais e multis no Brasil que são excelentes, maravilhosas, mas o Aché vai ser diferente. É um exagero, vamos dizer assim, perante o que existe no mercado, mas o futuro vai ser isso. Onde está o produto exposto é tudo área controlada. Se a área é Sólidos Orais está lá 100 mil. Se é Semi-Sólido é classe 10 mil, totalmente climatizada. Sistema de vestiário completamente diferente. Você entra à paisana, você tira toda a roupa, que você coloca uma roupa só para entrar naquele ambiente. Se você sai, você tem que fazer tudo de novo, tem que trocar novamente, fora a higiene, que você tem que lavar a mão... Quer dizer, é outro conceito. Toda a parte de Manutenção separada de Utilidades, não tem nenhum contato. A área preta é separada, não tem contato com a área que está o produto. A gente conhece muito a indústria que está aí fora, mas igual a essa, no conceito que foi montada essa, não. O sonho é ver isso e o sonho é preparar... Ela foi projetada para crescer mais, que ela é modular. Se você vê hoje, são os fingers A, B, C, D e E. Você pode continuar com os fingers. Tem muito espaço. Dá para fazer fitoterápicos, dá para fazer tudo. (risos)

Trabalho voluntário

P - E, fora o Aché, tem outras atividades às quais você se dedica? Carlos Roberto - Fazia trabalhos voluntários, mas ultimamente diminuí muito devido à faculdade que estou fazendo. Ah, mas eu fui voluntário, tomei conta enquanto eu fui presidente do clube. Fui voluntário para a Laramara. Hoje eu só faço trabalho de voluntário com três famílias que são da minha família. Nos finais de semana, a gente se dedica como voluntários para eles. Enquanto atividade externa, eu tinha um grande envolvimento com a Laramara e com o clube, não faço mais. Não faço porque não tenho mais tempo para isso. Eu mesmo e a minha mulher chegamos à conclusão de que temos necessidades na família, pessoas que precisam muito de ajuda. Então, todo fim de semana nos reunimos e vamos ajudar uma família. Às vezes compramos material de construção, entregamos para um, a gente vai lá, olha os filhos, eu tenho um sobrinho que tem Síndrome de Down, então a minha mulher sempre o leva para especialista. M

P - E atividades de lazer, o que você gosta de fazer nas horas livres? Carlos Roberto - No sábado e domingo eu caminho e corro com minha mulher. Nós vamos ao cinema, nós vamos ao teatro, gosto de dançar... Eu procuro conciliar essa parte da família com lazer e o trabalho, porque exercícios, viagens nos finais de semana, me resgatam para chegar segunda-feira e eu estar inteiro, porque na realidade eu saio às seis da manhã e chego meia-noite em casa, às vezes uma hora. Então eu preciso compensar nisso. Eu gosto muito. Eu jogo bola... O que dá para fazer eu faço, só que um pouquinho mais restrito agora. E outra, a idade também... Agora estou com 50 anos. (risos) Embora eu não saiba que tenho 50 anos, mas não tem problema. (risos) Faz de conta que eu não sei.

Família

P - E quem mora hoje na sua casa? Carlos Roberto - Eu, a minha mulher e as minhas duas filhas. M

P - Queria que você falasse um pouquinho das suas filhas: nome, idade... Carlos Roberto - A minha primeira filha é a Camila, que hoje é formada em Jornalismo, está fazendo pós-graduação na Cásper Líbero e montou um escritório de assessoria de imprensa muito voltado para Medicina Alternativa. Está começando a vida, não consegue ganhar dinheiro, mas está indo. E a outra é a Carla. A Carla se formou o ano passado em Turismo. Esse ano também vai fazer a mesma coisa. Vai fazer pós e vai tentar entrar no mercado. Quer dizer, uma tem 21, a outra tem 23 anos. E o pai dela que está estudando ainda. (risos) A gente estuda. A minha mulher é uma mulher maravilhosa, nós estamos casados já há quase 30 anos. E ela que segura toda essa bucha aí, porque duas moças em casa... M

P - Você é um pai ciumento? Carlos Roberto - Olha, sou. (risos) Mas eu também entendo o lado do pessoal. A minha filha mais velha namora. Eu conheço todas as casas noturnas, de dança, porque eu levo a minha filha. Eu vou levar, às vezes às onze horas, e às vezes quatro horas da manhã vou buscar. Agora que a outra tem carro, mas essa menor não tem carro. Mudou um pouco agora, porque elas estão um pouquinho maiores e as amigas às vezes chamam os pais também. Então, a gente acaba trocando. Mas eu encaro naturalmente. Eu tenho bastante ciúme, me preocupo muito com horário, essas coisas, mas eu também fiz isso. Então, elas têm a liberdade, a gente tem uma relação muito aberta nesse aspecto. Mas eu as adoro. (risos)

Sonho de vida

P - Existe um grande sonho que você gostaria de realizar? Carlos Roberto - Olha, eu sempre vivi a vida intensamente, toda a minha vida. Então, às vezes, quando eu penso que eu tenho que me aposentar, eu não me vejo parado. Eu me vejo, talvez, com um ritmo menor de trabalho, mas eu pretendo montar alguma coisa para mim. Tenho alguns sonhos, alguns projetos, que estou estruturando bem devagar, mas eu penso nisso. M

P - O quê? Carlos Roberto - Eu já pensei até em uma consultoria na própria indústria. Já pensei muito em lidar com produtos naturais, porque eu sou vidrado nisso. Eu não como carne vermelha, eu quase não tomo refrigerante, eu não bebo, eu não fumo, pratico bastante esporte e vejo muito esse lado, principalmente de verdura com agrotóxico, eu acho uma loucura isso. Quer dizer, a gente procura estar comprando também essas coisas que não têm produtos químicos. Então, eu me vejo muito desse lado. Ou talvez até uma plantação de alguma coisa, mas tudo com produtos orgânicos. Tenho alguns projetos, até com comida, mas vegetariana. Eu não sei. Mas espero que eu consiga mesmo.

Contar sua história

P - Já estamos caminhando para o final, eu queria perguntar o que você achou de ter contado um pouquinho da sua história? Carlos Roberto - Eu achei muito bom. Não parece, mas você acaba se emocionando, esquecendo às vezes de muita coisa e isso te resgata muito. Você volta alguns anos atrás e você lembra de você, lembra das pessoas, lembra que você passou momentos bons, ruins, mas eu acho que, de tudo, eu só passei bons momentos porque a minha mulher, minhas filhas, todas elas praticamente nasceram do fruto do Aché. Eu realmente tenho muita emoção até de falar disso. Eu fico até meio engasgado de falar da companhia. Você espera sair da companhia de peito aberto, de cabeça em pé, de missão cumprida. Mas, com tudo isso, vocês me deram a oportunidade de mostrar a história de um garoto que entrou com 17 anos incompletos e hoje está com 50 anos. Fico bastante envaidecido, orgulhoso de contar e, sinceramente, fico satisfeito. Fico até, de uma certa maneira, muito motivado de comentar e às vezes faltam palavras. Mas você vê que se sente valorizado. A partir do momento que, através de vocês, a companhia mostra a preocupação de estar resgatando a cultura deles, a história deles do passado, você se sente realmente parte disso, você se sente muito valorizado. M

P - Está jóia. Queria agradecer muito a sua participação e te parabenizar por toda essa trajetória. Carlos Roberto - Vocês me perdoem, não só vocês duas, mas toda equipe, essa equipe maravilhosa de vocês. Eu gostei muito da história do Museu. Para mim foi uma novidade. Eu acho que vai ser uma coisa de muito sucesso. Ela já me contou que vocês eram pequenininhos... Eu acho que a história de vocês está me parecendo com a do Aché. Começa pequenininho e vai crescendo. (risos) E a gente percebe que vocês fazem isso, não só vocês duas, com profissionalismo. A gente viu os técnicos também, vê que são muito unidos. Me lembra a companhia, quando nós éramos pequenos. Boa sorte para vocês. Estão todos de parabéns. M

P - Muito obrigada pela participação.

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